Outubro 2014

-DEUSASSEMIPARTICULARES-


Revigora a aurora vinda de outrora,

Pois, domando a natureza, A Dama da Loucura,
Deusa da Beleza que se alcança em candura.

Como ainda ouço meu próprio lamento?
Hoje não sou, e já
Me encontro entre o chão e o firmamento.

-

Suando sobre sua sombra, solidão.
Engasgado, encontro entre este empurrão,
Demônios deste destino doutrinado.
Execrado, exerço esta estirpe, emplumado.

Falta tempo para o tempo,
Temperamental.
Pois é de espera, fica muda, deixa-me normal.
Não me saro, curo, calo, sinto este mal.
Mas não há nada aqui, meu bem, para se ver...




Documentos do Dr. Sergioeistein #2

Documentos do Dr. Sergioeinstein
PACIENTE: KOWERENT, John

         É indiscutível os incríveis poderes que a mente exerce sobre o corpo, demonstrando que a neurologia não é um campo chato e que segrega os estudiosos da matéria a um limiar sem coito com o sexo oposto. Assim pude mais uma vez constatar quando o jovem John Kowerent me procurou no auge de sua aflição.
A esta altura eu já havia presenciado os mais diversos casos do que chamamos de “esquisitices psicológicas”, porém, nada comparado a singularidade deste paciente, que me confessou estar sendo acometido de urticárias de todas as formas e tamanhos, e que nenhum dermatologista havia encontrado forma de ajudá-lo, como é de feitio destes pobres homens que acreditam exercer a medicina enquanto apenas indicam cremes e pomadas. No primeiro momento imaginei estar sofrendo uma severa ofensa do jovem Kowerent, mas ao me explicar com o devido zelo, compreendi estar diante de uma espécie de efeito nocebo.
Ocorria que, ao ouvir a expressão “revolução de 64”, as coceiras e áreas avermelhadas surgiam por todo o seu corpo. Ao ser questionado sobre qual era a sensação no momento em que ouvia a frase, o jovem a definiu como “um golpe torturante”. Logo, achei que o paciente deveria se isolar, para que a tal frase não fosse ouvida com frequência. Assim, o instalei na ala esquerda do hospital, conseguindo controlar os efeitos de suas urticárias enquanto prosseguia com meus estudos.
Para aumentar o desespero de Kowerent e o apressar de minhas pesquisas, nos aproximávamos de um momento de efervescência política, o que aumentou consideravelmente as erupções na pele do jovem. Coisas parecidas haviam acontecido durante o tratamento, e foram contornadas com alguns documentários e doses homeopáticas de MPB, entretanto, o número de asneiras propagadas durante os dias que se seguiram agravaram o estado do paciente. Após uma semana, John não pôde mais falar. Foi calado por um forte inchaço em sua garganta, o que também colocava sua vida em risco. Dado este fato, fui forçado a colocá-lo na UTI para que respirasse com ajuda de máquinas.
Antes do fim derradeiro, cheguei à conclusão que nenhum estudante de ciências sociais ou dermatologista chegou: o paciente deveria continuar ouvindo aqueles que propagavam “revolução de 64”. Rapidamente, preparei um videoclipe com diversos discursos de pessoas que por um longo tempo me fizeram acreditar que anencéfalos poderiam chegar até a fase adulta. Ao absorver as gravações por completo, Kowerent teve uma série de convulsões que findaram com um longo suspiro. Por fim, o jovem compreendeu que frases imbecis precisam ser tratadas como tais e que deve-se apenas combatê-las com o minimo de conhecimento e postura enérgica. De toda forma, o paciente ainda se coça ao ouvir a frase, mas isto é totalmente compreensível.



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