Convidado (In)Desejado

    Convidado indesejado, por que retorna à esta morada? Nunca o expulsei, e é possível ouvir dos vizinhos que da minha boca só saíram coisas boas à teu respeito, porém, não permiti que voltasse.
    A sua última estadia certamente não será esquecida, e duvido que esta seja diferente, pois por mais singular que suas visitas possam ser, elas sempre possuem aspectos comuns. Passei meses tentando reverter os males que provocou em meio à tua saída. Encontro vestígios teus em todo canto. A poeira que levantou, já não posso esconder embaixo dos tapetes, pois a sujeira já os encobriu, e não faço mais ideia de onde estão.
    Por que retorna agora? Por que volta justamente quando não o espero mais? Há tempos atrás, quando o chamei, mal obtive uma resposta minimamente satisfatória. Recebi apenas alguns dos teus parentes, muito queridos, realmente, mas tão menos expressivos e enérgicos que você, confusa visita. Hoje, satisfeito com a forma que minha solidão ecoa nestes cômodos empoeirados, recebo tua visita sem o menor aviso prévio. E então, agora, o que fazer contigo? Compreende o quão abalado estou?
    Talvez não tenha ficado claro, mas o lembro que nunca me entristeço com tua chegada, mas sim, com tua ida. Ambas, chegada e ida, costumam ter em comum a mais incompreensível semelhança: a falta de indícios de que irá acontecer. Não sei se devo arrumar um quarto, ou se está decidido em ficar esparramado na sala. Mal sei o que fazer com os entulhos do passado e já tenho de decidir o que fazer com os do futuro. Logo não haverá espaço no porão, e se optar pelo sótão, posso acabar por ver o teto cair sobre minha cabeça.
    É neste impasse que me vejo, e acredito que me entenda. É uma decisão difícil, e muito arriscada. Acontece que se fecho minha porta, é provável que você não a abra, mas se permito que entre, nada te impedirá que fique - ou pior -, que me deixe. Se eu soubesse ao menos quanto tempo irá ficar. Se um dia decidirá morar para sempre nestes quartos de velas apagadas, que quando acesas, podem incendiar tudo que as cerca. Oh, como tua presença confunde meus pensamentos. Já o vi queimar cômodos que mal podem ser destrancados, e mesmo que mantenha tal horrível e comum proeza, sinto o desejo de que queime tudo novamente.

    Não importa quão destruidor você ainda possa ser, minha porta sempre estará semi aberta, e em alguns momentos, totalmente escancarada. Se, vê-lo ir embora sem fazer as malas é devastador, viver sem tua companhia é a ideia mais nefasta de todas. Venha até a mesa, pois quero alimentá-lo. Prometo não sufocá-lo ao escurecer. Peço apenas que fique, e me ajude a limpar este lugar, para que quando retorne à desgraça, as paredes consigam suportar o peso dos teus entulhos.

    Bem vindo, Amor. Sinta se em casa.

2 Comments

  1. "Acontece que se fecho minha porta, é provável que você não a abra, mas se permito que entre, nada te impedirá que fique - ou pior -, que me deixe." Amei *-*

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