2014

-DEUSASSEMIPARTICULARES-


Revigora a aurora vinda de outrora,

Pois, domando a natureza, A Dama da Loucura,
Deusa da Beleza que se alcança em candura.

Como ainda ouço meu próprio lamento?
Hoje não sou, e já
Me encontro entre o chão e o firmamento.

-

Suando sobre sua sombra, solidão.
Engasgado, encontro entre este empurrão,
Demônios deste destino doutrinado.
Execrado, exerço esta estirpe, emplumado.

Falta tempo para o tempo,
Temperamental.
Pois é de espera, fica muda, deixa-me normal.
Não me saro, curo, calo, sinto este mal.
Mas não há nada aqui, meu bem, para se ver...




Documentos do Dr. Sergioeistein #2

Documentos do Dr. Sergioeinstein
PACIENTE: KOWERENT, John

         É indiscutível os incríveis poderes que a mente exerce sobre o corpo, demonstrando que a neurologia não é um campo chato e que segrega os estudiosos da matéria a um limiar sem coito com o sexo oposto. Assim pude mais uma vez constatar quando o jovem John Kowerent me procurou no auge de sua aflição.
A esta altura eu já havia presenciado os mais diversos casos do que chamamos de “esquisitices psicológicas”, porém, nada comparado a singularidade deste paciente, que me confessou estar sendo acometido de urticárias de todas as formas e tamanhos, e que nenhum dermatologista havia encontrado forma de ajudá-lo, como é de feitio destes pobres homens que acreditam exercer a medicina enquanto apenas indicam cremes e pomadas. No primeiro momento imaginei estar sofrendo uma severa ofensa do jovem Kowerent, mas ao me explicar com o devido zelo, compreendi estar diante de uma espécie de efeito nocebo.
Ocorria que, ao ouvir a expressão “revolução de 64”, as coceiras e áreas avermelhadas surgiam por todo o seu corpo. Ao ser questionado sobre qual era a sensação no momento em que ouvia a frase, o jovem a definiu como “um golpe torturante”. Logo, achei que o paciente deveria se isolar, para que a tal frase não fosse ouvida com frequência. Assim, o instalei na ala esquerda do hospital, conseguindo controlar os efeitos de suas urticárias enquanto prosseguia com meus estudos.
Para aumentar o desespero de Kowerent e o apressar de minhas pesquisas, nos aproximávamos de um momento de efervescência política, o que aumentou consideravelmente as erupções na pele do jovem. Coisas parecidas haviam acontecido durante o tratamento, e foram contornadas com alguns documentários e doses homeopáticas de MPB, entretanto, o número de asneiras propagadas durante os dias que se seguiram agravaram o estado do paciente. Após uma semana, John não pôde mais falar. Foi calado por um forte inchaço em sua garganta, o que também colocava sua vida em risco. Dado este fato, fui forçado a colocá-lo na UTI para que respirasse com ajuda de máquinas.
Antes do fim derradeiro, cheguei à conclusão que nenhum estudante de ciências sociais ou dermatologista chegou: o paciente deveria continuar ouvindo aqueles que propagavam “revolução de 64”. Rapidamente, preparei um videoclipe com diversos discursos de pessoas que por um longo tempo me fizeram acreditar que anencéfalos poderiam chegar até a fase adulta. Ao absorver as gravações por completo, Kowerent teve uma série de convulsões que findaram com um longo suspiro. Por fim, o jovem compreendeu que frases imbecis precisam ser tratadas como tais e que deve-se apenas combatê-las com o minimo de conhecimento e postura enérgica. De toda forma, o paciente ainda se coça ao ouvir a frase, mas isto é totalmente compreensível.



-ARTESÃO-

Quero das estrelas fazer laços
Correntes para que não fuja
Que se distanciem os percalços
E a saudade se encurta

Da lua criar a cama
Com o abraço deste mar
Alimentando a eterna chama
Que vem nos testemunhar

Quero arrancar da Terra o fogo
Fazer do amor continuo antro
Entender que não um jogo
E prosseguir sem desencanto

Do tempo fazer escravo
Para que nunca chegue o fim
Findando o que eu agravo
Me tornando Arlequim

Quero arrancar o Sol do eixo
Para enfim, pôr você
Com os planetas, um enfeixo
Continuamente a lhe ver

Like a Bear

Eu sou o urso
Devorando sua pequena colmeia
Arranhando a base da árvore
Querida, cuidado para não tombar

Tenho um presente entre os meus dentes
E música na ponta dos dedos
Agora suas pernas irão dançar
Dançar sobre a minha sinfonia

Apenas a assinatura de uma obra
E como tudo, isto
Não vai durar para sempre
Por mais que este seja o seu desejo
Por mais que este seja o seu desejo

Eu não entendia bem o porquê
Sim, eu fui um tolo
Mas hoje eu entendo plenamente
E vou te dar um pedaço disto, garota
Enquanto arranco tudo de você

Esperneie e grite
Diga "não" e invoque os seus deuses
Sabemos que é isto o que quer
E como poderia não ser?
E como poderia não ser, querida?
E como poderia não ser?

Acho que posso te ensinar uns passos
Mesmo você dançando tão bem
Sei que talvez eu esteja enganado
E você esteja mentindo
Mas sabemos que ninguém se importa
Pois temos aquilo que buscamos
E sabemos
Sabemos que nunca terá algo melhor para buscar
Por mais que este não seja o seu desejo
Por mais que este não seja o seu desejo
E como poderia ser, querida?
E como poderia ser?


-OUROBOROSDOLAPSORAPTO-

Hoje eu vi o futuro
E enxerguei a inevitabilidade dos fatos
Como dois e dois são nenhum
E a moderação é tão exagerada

Você foi a vítima e o criminoso
A morte e o carrasco
Me sufocando com a minha tolice
Achando que iria me desmaiar

Todos aplaudiram o aparente espetáculo
O esperado assombro de um ser patético
Mas todos lacrimejaram com a morte
Outro ser como eu não existirá

E enxerguei ainda além
Como uma serpente e um boi
Me devoro e me castro
Construto d'Eus

Cada vez mais para dentro de mim
Um leito de morte ou de aguardo
Mas isto já não possui importância
Último sonho para quem me acordou

Hoje eu vi o futuro
E enxerguei a inevitabilidade dos fatos
Como dois e dois são nenhum
E a moderação é tão exagerada


-ANTESEALÉM-

Ela veio em um sonho
Do inesperado dentro do inesperado
Como um pássaro balançando a copa das árvores

Ela é como eternizar a Lua e o Sol dentro de um só dia
Uma ninfa costurando o perfume no seio de um bosque esquecido
É a poesia encarnada saltando sobre os campos, o nascer de uma orquídea

Pois eu a vi levantar de um lago índigo ao sopé de um suspiro
E o entrelaçar de seus cachos ao redor desta margem
O levante das águas e o nascer de duas infinitudes estrelares
Foi como ser e não estar, como sorrir e chorar

Talvez algum dia eu possa transformar os meus pulmões em pincéis
Posso beijar o seu rosto mais uma vez e abraçá-la por completo
Já não há maneira de senti-la que sacie esta sede, ou que me alforrie desta fome
Não surgirão encontros que eliminem esta saudade
Pois já a sinto muito antes de nascer

Estou queimando de dentro para fora e não posso interferir
És como um vendaval, tempestuosa benção
Já posso sentir os anjos nos invejando na estrela mais próxima, sim, posso
E se houver um fim, irei costurá-lo ao início
Sugarei o mundo para dentro de nós dois
E nos trancarei no canto de um olhar

Cuide-se, querida
Sinto que o mundo vai acabar



-EQUILIBRISTA-

Enquanto isso vai se exercendo o equilibrismo,
neste abismo, 
entre quem se é e quem se quer ser.

Mas nos perdemos,
nos apagamos,
nos esquecemos,
nos entregamos.

E é nesta busca por nos tornarmos quem não somos,
deixamos de ser quem fomos,
e abrimos mão de quem poderíamos ser.

E se é ausência,
é abstinência,
é aparência,
é inexistência.

Encaramos este espelho pintado por uma cerda grossa,
refletindo uma imagem que não nossa,
mas de um aquele que não sabemos ao certo quem é.

Resta a frieza,
a pobreza,
a miudeza,
a certeza... Somos os nada.

E dentro da indecisão, como poderíamos ser outra coisa?





MY DEAR.MOON

Mas nossas unhas se perderam por nossas peles e
O tempo recolhe as memórias que ainda não foram juntas ao reflexo do teu rosto.
Zunidos poluem este enredo
Unido por amor, paixão e medo.

Nossas bocas são as chaves que não se encaixam,
Os códigos que desabotoam nossas vestes.
Juntos somos uma fonte de sangue e fúria.
Dentes rangendo em dor e luxúria...

Um escanção por nos provar pode dizer quantos anos nossas marcas têm?
Criamos opérculos sobre brânquias que não nos permitem respirar, enquanto
Naufragamos nesta lacrimal maré
que nos confessa um futuro regado por livros, romance e café.

Quem poderia assinar a autoria desta névoa, ma chéri?
Somos o eterno farol escarlate a brilhar para nós mesmos.
E se antes desta expectante vida lhe questionarem como esta linha continua,
Aponte para o céu; risque as nuvens, as estrelas, e a lua.





ONDE OS NOVOS DENTES NASCEM

“Ouviu-se um lamento vindo do leste. Almas anunciando um tempo de chuva e escuridão. O Senhor do Vento carregou todas as nuvens para a fúnebre festa e, com suas garras fincadas no firmamento, rasgou os céus com uma estrondosa tempestade.
                Uma época de medo, onde ladrões preferiam passar fome em suas casas. Os religiosos não cultuavam os deuses, e os descrentes já começavam a crer. Se houvesse luz naqueles dias, perceberiam que a cidade estava banhada em sangue, não em água.
                Criaturas da noite banqueteavam ao meio-dia. O tempo havia se perdido nos meandros da noite. Caos em meio à dança sincronizada de assassinatos. A morte, maestro de tal música sepulcral, regozijava-se ao animar os bailarinos empanzinados.
                Ocorreu, então, o esperado resultado. O aparente fim deste terror incomparável. Os seres noturnos fartaram-se. Suas tripas pesavam como as lágrimas de um recém nascido. Já não podiam andar. Amontoavam-se em pilhas de carne putrefata, enquanto urravam de sede.
                 A chuva que já não voltava há semanas, retornou com o choro dos deuses. As divindades se encontravam em horror, desmaio após desmaio, enquanto observavam as ações dos terrenos. O céu em luto. A terra em ardente vingança.
                Medrosos seres de sujas almas, todos empenhavam o ódio. As criaturas que antes provocavam dor, agora saboreavam o limite dela. Mas se iniciou um acontecimento inesperado, como é de costume acontecer com os que empenham algo com paixão. 
Vômitos formaram enchentes. Os dançarinos fúnebres restantes sentiram a náusea da doença humana. Tosses e escarros tornaram o figurativo em literal. Os atingidos pelo fétido córrego de excreções se transformaram nos seres que, hoje, sugam nossas vidas.”



-OBAILEDOSSORRISOSSECRETOS-

Gélidos vampiros sob o luar da noite quente
Sugam o néctar dos pulsos fortes do jovem Eros
O cálice veste um fino tecido cerúleo
Enquanto o athame escarlate risca seios e ventre

Assim como um vinho de tempos imemoriais
A saliva embriaga os dançarinos ressumados
Em um baile secreto ao som de gemidos
Onde passos os levam profundamente ao mesmo lugar

Os caninos assinam o poema escrito sobre a luxuriosa pele
Sem a métrica de valsas poéticas
O rítmico escambo se envolve em sublimes tons
Ao decorrer da atritante caminhada à suprema alacridade

As colunas se envergam em inebriantes horripilações
Carníferas marcas nas retorcidas nucas
Notificam o lascivo encontro inolvidável
Desta díade inigualável




-TARÂNTULA-

Tenho um deus, para o qual nunca orei,
E amantes que nunca amei.
Sou o orvalho que estoura em uma pedra,
A água do aquário que se quebra,
A tarântula dançando pelas folhas
De um jogador eternamente sem escolhas.
Nunca se vai.
Apenas se esvai.
Dos cantos rimados de um pequeno bebê,
Aos ouvidos atentos daquele que não vê.
Não consigo gritar ou permanecer quieto,
Não sei o que fazer ou se isso importa ao certo.
Sou o chicote que me aflinge,
A charada da Esfinge,
Um carro sem freio
Surgindo de um grito que explode em meu seio.
Sou aquele que abraça sem sentir.
Um homem que nunca se foi - que nunca esteve aqui.
Pese o meu coração.
Sem feridas, sangrei até me tornar lama.
Que me transformem em vaso, e que este vaso quebre.

-SEMETA-

Sou um cometa sem gelo, sem cauda.
A ausência de sentido trilhando um caminho inexato, rumo à impactante e inevitável colisão.

Influência de gravidade negativa...
Poeira cegando,
Estrelas queimando,
Um núcleo pulsando.

O traço que risca o céu, é o mesmo que fere a terra.
O frio que beija a vida, é o mesmo que finda a era.

Convidado (In)Desejado

    Convidado indesejado, por que retorna à esta morada? Nunca o expulsei, e é possível ouvir dos vizinhos que da minha boca só saíram coisas boas à teu respeito, porém, não permiti que voltasse.
    A sua última estadia certamente não será esquecida, e duvido que esta seja diferente, pois por mais singular que suas visitas possam ser, elas sempre possuem aspectos comuns. Passei meses tentando reverter os males que provocou em meio à tua saída. Encontro vestígios teus em todo canto. A poeira que levantou, já não posso esconder embaixo dos tapetes, pois a sujeira já os encobriu, e não faço mais ideia de onde estão.
    Por que retorna agora? Por que volta justamente quando não o espero mais? Há tempos atrás, quando o chamei, mal obtive uma resposta minimamente satisfatória. Recebi apenas alguns dos teus parentes, muito queridos, realmente, mas tão menos expressivos e enérgicos que você, confusa visita. Hoje, satisfeito com a forma que minha solidão ecoa nestes cômodos empoeirados, recebo tua visita sem o menor aviso prévio. E então, agora, o que fazer contigo? Compreende o quão abalado estou?
    Talvez não tenha ficado claro, mas o lembro que nunca me entristeço com tua chegada, mas sim, com tua ida. Ambas, chegada e ida, costumam ter em comum a mais incompreensível semelhança: a falta de indícios de que irá acontecer. Não sei se devo arrumar um quarto, ou se está decidido em ficar esparramado na sala. Mal sei o que fazer com os entulhos do passado e já tenho de decidir o que fazer com os do futuro. Logo não haverá espaço no porão, e se optar pelo sótão, posso acabar por ver o teto cair sobre minha cabeça.
    É neste impasse que me vejo, e acredito que me entenda. É uma decisão difícil, e muito arriscada. Acontece que se fecho minha porta, é provável que você não a abra, mas se permito que entre, nada te impedirá que fique - ou pior -, que me deixe. Se eu soubesse ao menos quanto tempo irá ficar. Se um dia decidirá morar para sempre nestes quartos de velas apagadas, que quando acesas, podem incendiar tudo que as cerca. Oh, como tua presença confunde meus pensamentos. Já o vi queimar cômodos que mal podem ser destrancados, e mesmo que mantenha tal horrível e comum proeza, sinto o desejo de que queime tudo novamente.

    Não importa quão destruidor você ainda possa ser, minha porta sempre estará semi aberta, e em alguns momentos, totalmente escancarada. Se, vê-lo ir embora sem fazer as malas é devastador, viver sem tua companhia é a ideia mais nefasta de todas. Venha até a mesa, pois quero alimentá-lo. Prometo não sufocá-lo ao escurecer. Peço apenas que fique, e me ajude a limpar este lugar, para que quando retorne à desgraça, as paredes consigam suportar o peso dos teus entulhos.

    Bem vindo, Amor. Sinta se em casa.

-ONIBUSLOTADO-

Tô me apaixonando à qualquer "bom dia".
Meus flertes são apertos de mãos e abraços onde apenas os ombros e bochechas se encontram. Aquilo de barriga com barriga é só para os mais chegados. Talvez para os que eu ame. Os que eu conheço um pouco mais do que duas ou três horas.
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Meus breves romances estão nas paradas de ônibus. Naquela garota sentada esperando o expresso chegar. Aquela, voltando do trabalho, suada e sem graça que parece estar me vigiando.
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Podem achar que me enganam, mas toda essa gentileza deve dar em algum lugar. Ninguém pergunta "como vai o seu dia" sem segundas intenções. Certamente não! Devem procurar alguém que as beije sem soltar um "com sua licença".
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Ah, eu tô me apaixonando com qualquer sorriso. Nada é tão meu "amigo" sem querer me ter.
Devo estar apenas me iludindo. Na verdade, apenas umas três ou quatro por dia estão à me desejar.
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Bem, bem, bem... Não importa o nível da piada ou da brincadeira, com toda a certeza minhas paixões mais puras e sinceras aconteceram durante breves segundos no interior de um ônibus lotado.

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