2013

-ALMOÇO-

- Quer fazer o pedido agora, senhor?
- O que você tem pra hoje?
- Invasão na favela deixa cinco vagabundos mortos, menina é estuprada, e é claro, rapaz é executado por milícia. Come chumbo, vagabundo!
- Quê?
- Vou repetir.  Invasão na favela deixa cinco...
- Não, eu entendi o que você falou. Quero entender o motivo de ter falado isso.
- Bem, senhor, é o que tem para o almoço de hoje.
- Eu não vou consumir nada disso.
- Não gostaria de pelo menos... Opa, opa... Me dá imagens do tirotei no centro. Come chumbo, vagabundo!
- Não quero ver nada disso.
- Olha só! Exclusivo! Exclusivo!
- Não quero saber. Eu vou embora.
- Um momentinho, senhor. Deixe-me falar da nossa parceira, a Comprimidos Izaza, a garantia de que você vai ter disposição para encarar o dia-a-dia. Se comprar agora, mas tem que ser agora, você leva...
- Não me interessa! Vou procurar um lugar melhor pra almoçar. E depois vou denunciá-los! Vou falar pra todo mundo, sobre como o pessoal daqui trata a vida humana como mercadoria.
- O senhor vai falar isso da gente?
- Sim. Se depender de mim, ninguém mais vai vir pra cá.
- Mas o senhor é um sensacionalista, mesmo. Fazendo caso com isso. Servimos isso tem tempo. Eu, hein.... Opa, opa... Me dá imagens! Me dá imagens!

Uma história comum que ainda não aconteceu.

                “Oh, Deus! Oh, Deus!”
                “Oh, droga...”
                “Oh... Oh... Não para!”
                “Oh, não... Droga... Estourou!”
                “Oh... Agora tanto faaaaaaaz... Oh...”

                E por isso nascerá Luquetet. Ele vai crescer sob o regime autoritário de seu pai, que o culpará de forma inconsciente por ter adquirido tantas responsabilidades quando ainda jovem. Ele não terá muitos amigos em sua infância. Suas amizades se limitarão à um gato obeso e um boneco de madeira apelidado de Merkz. O gato irá morrer por um problema no coração; Merkz irá quebrar logo em seguida.
                Luquetet irá chegar à adolescência sem perceber. Sua voz vai engrossar e pelos irão crescer quase na mesma velocidade que sua tristeza. Aos 15, ainda não terá beijado a boca de uma moça. Aos 16, se perguntará se não gosta mesmo de rapazes. Aos 17, declarará seu amor para um dos alunos de uma escolinha de futebol na qual seu pai irá matriculá-lo. Esta será uma péssima ideia, já que no dia em que completar 18, seu pai irá levá-lo à um bordel para o tornar “macho de verdade”. Luquetet vai ser observado por seu pai e seus dois tios, enquanto transa com Lissua, que vai usar o dinheiro desta transa para pagar parte de sua faculdade de direito. Este será o dia mais humilhante da vida de Luquetet.
                Aos 23, ele irá sair de casa para finalmente morar sozinho. Vai se instalar em um apartamento com infiltrações, em StarCity. O concerto será demorado, mas Luquetet sairá no lucro, já que vai conhecer Pauly. Este, estará com 27, desejando ter alguém pra chamar de “mô”. Luquetet terá o seu primeiro orgasmo. Pauly terá o seu primeiro amor. Os dois ficarão juntos e serão felizes por cinco anos.

                “Oh... Oh...”
                “Oh, droga...”

                No mesmo dia em que um gato obeso morrer após correr atrás de uma lagartixa, uma kombi com defeito será vendida. Tudo bem para o comprador, que fará lotadas e fretes durante os anos seguintes. Infelizmente, este comprador que se tornará vendedor, não falará para o segundo dono da kombi à respeito da direção sempre puxar para um dos lados.
                No mesmo dia que Luquetet e Pauly forem comprar uma máquina de barbear feito por uma criança chinesa chamada Liu Maluo, uma adolescente arrogante e espinhenta chamada Tracy irá montar um cheeseburguer sem nenhum esmero. O lanche será vendido com batatas fritas e 720ml de refrigerante, para um senhor gorducho que ganhará 100 mil na semana anterior, com a ajuda de uma ótima e linda advogada que garantirá a vitória de um processo por danos morais.
Na hora em que Luquetet e Pauly estiverem atravessando uma certa rua, carregando sacolas de plásticos, pão e pickles cairão de uma caixa quando aberta dentro de uma kombi que puxa a direção para a direita. Com a calça suja de molho, o motorista soltará a volante. Apenas Luquetet morrerá no acidente. O gorducho apressado irá se matar um mês depois.
                É claro, nada disso aconteceu ainda. Na verdade, certas coisas podem nem acontecer, caso uma certa mulher tome uma pílula dentro das próximas 48 horas. É óbvio, não tem como alguém saber de tudo, não?

“Oh...”
“Oh, meu deus...”



Documentos do Dr. Sergioeinstein #1

Documentos do Dr. Sergioeinstein
PACIENTE: GRIMACE, Juli

                Um dos primeiros casos que tive o desprazer de acompanhar, foi o da senhorita Juli Grimace. Quando a conheci, eu ainda tinha o fulgor da juventude e não possuía muito mais que um diploma e algumas boas recomendações. Pois ocorreu que ao final de um dia cansativo no hospital, ajudei a salvar a vida de Juli, que mais parecia ter sofrido um acidente automobilístico. A senhorita Grimace perdia muito sangue em decorrência de ter tido os seus pés arrancados - até então - de maneira desconhecida. Logo, a moça foi atendida e sua vida foi salva depois de algum tempo de trabalho. O caso, aparentemente corriqueiro, não riscaria minha memória se não fosse o fato de que Juli havia sido a única culpada pela perda de seus pés.
Constatamos assim que a jovem voltou a si, sem os pesares da dor, que a causa do problema era o horror que ela possuía por pés. A repulsa havia chegado em um nível tão alto, que a decisão de se auto mutilar logo pareceu razoável para a senhorita Grimace, que enfiando suas pernas em um moedor de cana, teve seu objetivo alcançado. A massa de carne destruída não pôde ser recuperada pelos médicos.
A ojeriza da moça tinha por fonte um distúrbio psicológico, que foi gerado pelo fato de Juli não conseguir sentir os próprios pés, dado uma disfunção nervosa qua a acompanhava desde o nascimento. A senhorita Grimace acreditava não somente que seus pés não faziam parte de seu corpo, como também que o mesmo acontecia com toda a humanidade.
Após dada a alta, tive o imenso desprazer de ter que acompanhar o tratamento de tão anormal ser humano, que além do distúrbio psicológico, também possuía um incrível poder de persuasão. Digo isto, pois, três dos cinco psiquiatras que trabalharam com o caso, foram convencidos por Juli de que os pés eram realmente parasitas.  Destes três, um morreu por perda de sangue após se mutilar. O outro, na verdade uma recém médica, se tornou a maior atleta para-olímpica da história. O terceiro se arrependeu da ideia assim que arrancou o pé esquerdo. Meses mais tarde, ele iria assassinar a senhorita Grimace usando uma perna de pau.
Dos dois psiquiatras que não foram convencidos de tão absurda ideia, um escreveu o livro A Síndrome de Lardaum, que aborda o caso de Juli. O outro, entrou recentemente com um processo contra o anteriormente citado. De acordo com a acusação, os estudos não são de autoria de Lardaum, mas sim do segundo médico a trabalhar com a senhorita Grimace. Logo, o problema de Juli deveria ser chamado de “síndrome de Rowbadu”. O que nenhum dos dois descobriu, é que a solução para o problema era um bom par de meias e sapatos bem amarrados.


OBS: Alguns pés são tão feios que geram distúrbios mentais irreparáveis por chinelos ou sandálias.

-PETALASDECARNE-

“Arranque o útero da sua mãe!”
“Arranque o útero da sua mãe!”
O pequenino, sem nome e sem sexo, acordou.
Sentiu demônios cochichando e cantarolando pelos cantos do cômodo.
Mal conseguia levantar de seu leito. 
O piso se mostrava muito mais cruel do que se fosse feito de pedras derretidas.
Trêmulo, mal conseguia colocar um pé na frente do outro.
“Vá! Arranque o útero da sua mãe!”
Os azulejos começaram a despencar; um fundo de carne pulsante se mostrava.
O frio sangue que marcava o chão, fez seus pelos se levantarem.
Sua mãe descansava no eterno. Seu ventre estava aberto como uma flor.
Pétalas de pele, músculos e vísceras, exalavam um odor nauseante. 
“Isto é culpa sua!” Disse o pai.
Antes que alguma lágrima pudesse sair de um de seus olhos, o pequenino acordou.
Olhou para todos os cantos. Ainda assustado, voltou a se deitar.
E então, ouviu: “Arranque o útero da sua mãe!”

-LUTAPELOSDIREITOSDOSPEIXESORNAMENTAIS-

- Em que posso ajudá-lo, senhor?
- Opa... Então, é que eu comprei um peixe aqui semana passada e eu quero o meu dinheiro de volta.
- Por qual motivo, senhor?
- Eu comprei um limpa vidro. Ele está limpando o aquário, realmente, mas não quer continuar sem ser remunerado.
- E o senhor acha que ele deve continuar trabalhando sem receber?
- Eu só quero o meu dinheiro de volta.
- O senhor vai pagar os dias de trabalho do Carl?
- Carl?
- O peixe, senhor.
- É claro que eu não vou pagar!
- Ele já foi comunicado à respeito disso, senhor?
- Eu não falo com peixes.
- Ah, o senhor é muito bom para falar com peixes, não?
- Olha só, você vai devolver o meu dinheiro ou não?
- Onde o Carl se encontra, senhor?
- No meu aquário lá de casa.
- Ele vai continuar trabalhando sem receber, senhor?
- Você vai devolver o meu dinheiro?
- Não, senhor
- Então ele vai continuar lá até chegar a hora em que eu vou jogá-lo à descarga.



Logo após "O debate em Peixes Pai & Filho de 75", Carl Henry Max se tornou engajado na luta pelos direitos dos peixes ornamentais.


Carl morreu asfixiado durante "A grande quebra de aquários de 77", ocorrido após greves e muitos enfrentamentos contra bombas de oxigênio desligadas.

O dia de sua morte é lembrado todo 9 de setembro. Na data, se comemora a diminuição da carga horária dos peixes ornamentais, assim como, a conquista de um salário mínimo e férias obrigatórias.

-NOSSASNOVASJANELAS-

Jake Raster se cansou de sua vida e decidiu vigiar a dos outros.
Abriu uma grande janela e começou a fuxicar.
Em uma pequena janela que acabara de se abrir, Ela gritou: "Oi, tudo bem?"
Rapidamente Jake respondeu: "Eu vou bem, e você?"
Mal Jake falara, Ela disse: "Estou bem. Tem alguma novidade?"
Naturalmente, Jake falou: "Não, e você?"
E então, Ela soltou: "Nenhuma!"

Nuvens passaram, pessoas gritaram, e em um vai e vem de pessoas, o tempo logo se foi.
Raster parou para pensar na sua última conversa.
Pensou, pensou, pensou e chegou à uma conclusão.
Depois de analisar um pouco as coisas, percebeu que por causa da distância das janelas, ninguém escutava o que o seu interlocutor dizia. Tomou um choque de realidade quando notou que ninguém realmente se ouvia, e que ninguém realmente se preocupava com o que o outro falava. O hábito era tão grande, que ao perceber que o "outro alguém" havia dito algo, apenas se respondia o comum, não importava os desejos e interesses.

"Por que as pessoas tem medo da falta de assunto?
Malditos! Dizendo para que eu puxe um assunto. De onde vem esse medo? Da edição dos filmes ou da preocupação de não se tornarem sem assunto como seus pais? Malditos! Malditos! Sou um maldito!".

Ficou tão enraivecido com tanta futilidade que fechou sua grande janela.

Logo entendeu... Aquilo nada mais era do que um comportamento padrão de "janela".

-NOVELADEPUESTODEPERIODICOS-

- Hey! Hello, Mr. Bor’Ing?
- Brazilian guy?
- Yeah!
- Yo puedo hablar portugués.
- Pode?
- Si, si. O que precisa, señor... ? 
- Swin’Side... ... 
Swin’Side da Silva. 
- Pois então...
- O médico da sala 7 disse que o senhor iria aplicar o remédio.
- Ah, por supuesto. Un momento... Pronto!
- Dói?
- Va a ser muito rápido. Mais rápido que o tempo que tardó su relación, por cierto.
- E depois?
- Será feita a reciclagem para transformar el material biológico en los libros.
- Qual tipo de livros?
- Romances de banca de jornal.
- Oh, não! Pare por fa...
“CRACK”
- Siguiente, please!

-TIMEFORTEA-

Sua pele desbotada fez o risco escarlate gritar enquanto descia pela panturrilha

Explodiu em meio à espuma, o pequeno agora pisava em um lago de cor rubra
Cambaleou aos quatro cantos até achar conforto em um grupo de moluscos mortos
A tarde envelhecia e o relógio já soava quando se ouviu: “chá!”



Os olhos do mancebo alimentavam os lábios dentados de pedra ao pé da encosta
Netuno limpava seus cortes e espumava a laguna
Gritava: “Chá! Chá!”
Para os céus o púbere lançou os seus pedidos

O teto azul, há muito, se tornara nubiloso
Sua cor se esvanecia lado-a-lado com seu sangue
“Chá!” o mar gritou



Um canino do bucal rochoso serviu de palanque para o discurso:



“Maldito seja tudo que sair do teu ventre!
Malditas sejam as florestas que vivem em teu pélago!
Malditos sejam os monstros marinhos!
Malditos sejam os que velejam!
Maldito seja! Maldito seja! 
Esteve com meu pai enquanto o ar povoava os seus pulmões,
E mesmo com sua morte, não me oferece um tardio adeus.”



O vento soprou
O dente rasgou
Sua carne furou
E então, do pé do abismo até sua crista, pôde-se ouvir: “Chá! Chá! Chá!”

-COMOVOCÊFOIPARARAÍ?-



Havia uma barata dançando no teto, mas não sei se isso importa ao certo.
Como de costume, Jake Raster relembrava e pensava à respeito de seus medos, suas decepções e seus defeitos.
Olhando para o teto, Jake ficou.
Ficou tanto tempo, que a gravidade mudou.
Gritou, gritou. Pulou, pulou e pulou. Mas de nada adiantou.
"E agora? O que fazer?" Se perguntou.

Correu pelo forro de madeira, sobre e sob, o chão do corredor.
Correu e correu, até que avistou um assustado Senhor.

"Senhor! Estou sob a nova lei da gravidade!"
Pois disse o Senhor:
"Isso não pode ser verdade!"
"Para mim também é novidade. Não se assuste bom Senhor, creia em sua sanidade!"
O Senhor o puxou, puxou e puxou. Mas de nada adiantou.

Em apenas três horas, todos os principais jornais do mundo já comentavam sobre o caso.
"Coisa do Diabo, não do acaso!"
Diziam os religiosos. Acho até que com atraso.

Andou, andou e andou. Depois de tanto andar, percebeu que "nada mudou".
Perdera o chão e ganhou o horror de tanta gente que logo exclamou:
"Esquisito? Anormal? Andar no teto é assim tão mau?
Muito foi falado, fui ofendido e apedrejado. Agora vejo que não há nada de errado!
Sou quem sou! Sou do teto, pois assim a vida me forjou.
Os seus olhos que não conseguem ver além!
Adeus à todos e passar bem."

Ao lado da barata e da lâmpada, em seu quarto adormeceu.
"Sou apenas diferente." Assim compreendeu.

-SILÊNCIONACHUVA-

Cálida morta! Cálida morta!
Por que adentras em minha mente?
Cálida morta! Cálida morta!
Por que só em dor tem se feito presente?

Assim que o astro Sol se põe a crepitar sobre a face em que me encontro, e os meus olhos de pouca vontade se abrem, sinto o gosto amargo da tristeza.

Todos os dias, sem exceção, penso no teu rosto. Este fato me adornava como pérolas de alegria, mas agora se apresenta como mero requinte de uma irônica maldade. Coisa nefasta que a roda do tempo guarda para os que sucumbem perante este mal.

Não me sinto em uma cova rasa, ou que já cheguei no fim de um profundo poço, mas que permaneço em queda contínua. 

Diz-se que o Sol nos dá vida. 
Não vou agradecer à este maldito por essa maldição.



-ESCOLHENDOQUEMSER-


Já não posso ser eu,  eu não posso ser eu,  já não posso ser eu!

Se eu for comum? Eu não tenho um cérebro!
Um hipster? Aí não sou levado a sério!
Não ouço rock and roll! (Não tenho atitude!)
Muito menos Mozart! (Pois sou um pseudo-cult!)
Pois...

Já não posso ser eu, eu não posso ser eu,  já não posso ser eu!

Tudo que eu faço é "pra se amostrá".
Desde mudar o meu corpo até me tatuar!
Vou viver como velho! (Foda-se a juventude!)
Tô cansado dessa porra! (Não há nada que mude!)
Pois...

Já não posso ser eu, eu não posso ser eu,  já não posso ser eu!

-CAFÉDAMANHÃ-

Não faço ideia do direcionamento que darei para este blog.
Raramente eu sei.

Jake Raster acordou às 18:00h, levantou de sua cama, tomou um banho e escovou seus dentes. Procurou por  algo para chamar de "café da manhã", e notou que apenas uma antiga fatia de pizza e uma garrafa de vodka, já pela metade, faziam parte do cardápio. Um cheeseburguer já havia se instalado abaixo de sua cama há um mês, mas lá não procurou.
Jake Raster saiu de seu apartamento para encontrar algo para comer, mas não achou. Não achou comida, não achou carros, não achou pessoas, não achou cachorros. Ali permanecia apenas os pregos de concreto que antes serviam de morada para milhares de pessoas. As lojas estavam fechadas e vazias, as cores rumavam para o cinza e o céu acompanhou o processo. Tão logo, tudo ficou cinza.
Jake Raster correu em direção à seu prédio, porém, não haviam portas ou janelas, somente concreto. Ele tentou acordar do sonho que imaginou estar passando. Jake não estava dormindo. Ele finalmente estava acordado.

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